A Alma Precisa de Movimento, Não de Racionalização
- Fernanda Azevedo

- 6 de abr.
- 4 min de leitura
Um dos fenômenos mais exaustivos que observo, seja nos meus atendimentos, nas conversas com amigos ou olhando para mim mesma, é o quanto a gente se perde no labirinto da nossa própria mente. E, pelo que tenho notado, esse zanzar para lá e para cá entre os corredores desse labirinto é puro excesso de racionalização.
Confesso que vira e mexe eu me pego tentando calcular a rota. Recentemente me vi paralisada diante de uma decisão simples, pesando os prós e os contras como se estivesse diante de um tribunal, tentando adivinhar o resultado de um futuro que ninguém pode ler. É essa mania antiga de querer colocar a vida em ordem antes mesmo de vivê-la.
Até que uma lucidez consegue uma brecha na minha mente e me diz: "Fernanda, você não tem a menor ideia do que você está fazendo, pare! É hora de se recentrar. Só assim você vai achar a saída". E funciona sempre! Mas muitas vezes acontece de eu ter que me perder para depois me achar.
O que acontece com muitos de nós é que caímos na armadilha de querer racionalizar tudo. Achamos que prever todos os cenários e buscar certezas absolutas antes de dar qualquer passo é o que vai nos proteger. Exigimos saber exatamente onde estamos colocando os pés, como se a vida fosse um tabuleiro de xadrez onde cada peça pudesse ser calculada milimetricamente.
É claro que a dúvida e a análise são humanas e muito necessárias. Antes de fechar um contrato ou tomar um rumo na vida, a gente precisa parar, ponderar e analisar a realidade. O problema não está na cautela, mas no excesso. Quando essa busca por segurança vira uma regra rígida, ela deixa de ser prudência e passa a ser paralisia.
O resultado disso é um barulho mental ensurdecedor que nos leva a bloquear o fluxo natural das coisas.
E esse peso não fica só trancado na nossa cabeça; o corpo cobra a conta. Há um desgaste físico real nesse processo. Essa necessidade de controle e previsão constante vira somatização e deságua em uma ansiedade crônica. O corpo começa a gritar aquilo que a mente tenta calcular.
É a mandíbula que trava no meio da noite, são os ombros que sobem em direção às orelhas como se carregassem o mundo, a respiração que fica curta e aquela insônia persistente porque o cérebro simplesmente não consegue desligar o modo de alerta. O corpo adoece tentando dar conta do peso de controlar o amanhã.
E se a gente parar de olhar para a superfície e cavar lá no fundo mesmo, encontramos a verdadeira raiz que alimenta essa dinâmica: a insegurança. Por trás disso tudo, existe um medo enorme de não ser bom o suficiente. É esse abismo que gera o excesso de dúvidas.
Essa fuga muitas vezes nem é consciente, mas é ela que nos impede de fincar raízes, de mergulhar de verdade nas experiências e de bancar os próprios desejos. Preferimos o controle estéril do pensamento à bagunça viva da vida real. E o paradoxo é que quase nunca funciona: trocamos o medo de nos jogarmos na vida pela autotortura mental.
Mas acontece que muitas vezes se trata de um sofrimento inútil, pois o nosso sistema procura sempre o equilíbrio e é aí que a vida acaba dando um jeito de tirar a gente desse labirinto. Às vezes o nosso próprio cansaço nos leva a uma breve distração e é nesse momento que de repente chega uma virada de chave.
Outras vezes, a saída vem espelhada pelo lado de fora. Pode ser falando do assunto na terapia ou com uma amiga que traz um ponto de vista diferente. Ou, quem sabe, quando você "casualmente" escuta a conversa de dois estranhos na rua e parece que eles estavam ali justamente para dizer o que você precisava ouvir. Um capítulo de livro, um artigo, um reel, ou até a letra daquela música que você já ouviu mil vezes, mas que naquele momento bate diferente.
Essas coisas que parecem vir de fora, na verdade, não vêm. Vêm de você mesma que, na busca por entender, projeta no externo e passa a prestar atenção. O universo dá sinais o tempo todo para aquilo que queremos compreender, basta pedir. São as sincronicidades agindo.
Mas há algo ainda mais profundo e silencioso acontecendo aqui, algo que diz respeito à nossa dimensão anímica. Quando nos recusamos a escolher, quando travamos o passo pelo excesso de pensamento, estamos bloqueando o nosso próprio processo de individuação.
A alma humana não foi feita para ficar trancada no laboratório asséptico da mente; ela é bicho da terra, precisa de movimento, de experiência e até dos arranhões dos erros para se lapidar e descobrir quem realmente é. A alma sufoca quando a reduzimos a uma mera espectadora de cálculos mentais. Ela definha quando não pode desaguar no mundo através de uma escolha real.
Ao sufocarmos o fluxo espontâneo da vida em nome de uma falsa segurança, impedimos que o nosso verdadeiro eu venha à tona. A paralisia nada mais é do que o grito desesperado da alma tentando respirar por sob a montanha de expectativas que querem a perfeição.
A segurança de verdade não vem do controle absoluto ou de ter todas as respostas antes de começar, o que quer que seja, mas da nossa capacidade de bancar os riscos de escolher uma porta e aceitar o que vier depois de passar por ela.
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Atenção: Texto autoral, plágio é crime.
Se o meu olhar sobre a vida ressoa com você, talvez seja o momento de pararmos de olhar apenas para os sintomas e encararmos o que está operando nos bastidores da sua psique. Eu não ofereço fórmulas prontas, mas sim um percurso corajoso para quem está disposto a desconstruir mecanismos obsoletos e resgatar a própria autonomia.
Em atendimentos individuais e online, ofereço o suporte técnico e humano para que você possa expandir sua consciência e viver com mais verdade.
Vamos além do óbvio?



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