Tirando o pé da porta
- Fernanda Azevedo

- 22 de abr.
- 3 min de leitura
Ah, nesta semana, o que está pegando aqui no meu campo é essa questão das portas fechadas. Todos nós sabemos que, “quando se fecha uma porta, se abre um portão”, não é mesmo? Todo mundo sabe disso! Quem nunca falou essa frase para um amigo que estava em um momento de negação da realidade, em uma tentativa fajuta de não precisar lidar com a própria frustração?
E quando você está no pé de uma porta entreaberta? Esse entreaberto, o que é? Por que você está ali? A porta não está nem aberta, nem fechada. É uma porta “em cima do muro”, confusa. Mas nós ficamos lá por um tempo, esperando que se abra e ilumine tudo. Numa esperança meio mágica, típica do infantil, que não consegue ver o todo de forma ampla. A verdade é que, se olharmos com um olhar adulto, a porta entreaberta está, na verdade, mais para fechada do que para aberta, pois, afinal, ela não deixa passar de verdade.
Eu vi uma porta entreaberta e fiquei ali um pouco, na esperança que se abrisse. Pus o olho, achei interessante o que vi através do semiaberto. Mas logo me veio uma imagem: já pensou, por exemplo, se na nossa casa todas as portas dos armários ficassem o tempo todo entreabertas? Que zona que seria isso! Tudo junto e misturado. Sim, claro que eu também atravesso a dúvida, mas não é o meu estado permanente. Eu a atravesso e decido.
Isso também se deve ao fato de eu ter coragem de encarar as portas fechadas. Afinal, portas fechadas também são rumo, também dão direção. Quantas vezes nos fixamos na porta que se fechou e tomamos isso como uma rejeição pessoal? Sentimos que a nossa importância está no valor que o outro nos dá, mas na verdade, nosso valor está no que a gente aceita que o outro nos entregue.
E aqui entramos em outra questão: quanto estamos vendo o outro? Talvez ele esteja escolhendo, de forma consciente e deliberada, dar o mínimo. E o nosso ego é tão frágil, né gente? É um “pititico” que toma conta da gente. É somente um “tremzim” que ofusca a nossa visão só porque se acha “chissà che cosa”! Qual é o dilema infantil que esse ego está tentando resolver quando fica ali, atrás da porta que está fechada na cara dele?
Ah, eu estou bem aqui pensando que, com tudo o que passei e superei na vida, não dá para aceitar migalhas, não dá para aceitar indecisão. Resolvi tirar o pé dessa porta entreaberta. Pensei: “Sabe do que mais? Deixa eu fechar essa porta, porque talvez seja o melhor para mim!”
Fui fechando sem bater, com cuidado, com carinho e com respeito. Com o passar das décadas, aprendi a lidar com a frustração. Agora eu olho bem de frente para ela, assim, topetuda, com medo mesmo, sabendo que ela vai me machucar. Eu olho para isso e me sustento nisso.
E quem sabe esse tirar o pé da porta também não seja amor? Acho que portas fechadas também são acolhimento, também são ninho.
Se uma porta está entreaberta, talvez seja melhor eu dar um passo para trás e fechá-la eu mesma. De repente, a pessoa é indecisa e espera que você decida por ela — assim, ela tira de si a responsabilidade e pode se vitimizar tranquilamente, “in santa pace”.
Ah, que legal! À medida que fui escrevendo, fui fazendo essas descobertas. Só que agora que entendi, me bateu uma preguiça absurda! Oh, gente! Não é que a minha compreensão também tem limite? Acho que vou atender ao pedido dela! “Dai va là”, melhor eu dar um tempo nisso, “che faccio meglio”!
Glossário
“Chissà che cosa”: Traduz-se literalmente como “quem sabe o quê”.
“In santa pace”: Em santa paz.
“Dai va là”: Ah, deixa disso / Para com isso.
“Che faccio meglio”: Que eu faço melhor / Que é melhor para mim.
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Atenção: Texto autoral, plágio é crime.
Se o meu olhar sobre a vida ressoa com você, talvez seja o momento de pararmos de olhar apenas para os sintomas e encararmos o que está operando nos bastidores da sua psique. Eu não ofereço fórmulas prontas, mas sim um percurso corajoso para quem está disposto a desconstruir mecanismos obsoletos e resgatar a própria autonomia.
Em atendimentos individuais e online, ofereço o suporte técnico e humano para que você possa expandir sua consciência e viver com mais verdade.
Vamos além do óbvio?



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