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Metamorfose: A Arte de Morrer em Vida


Estou aqui pensando na minha recém morte em vida e tentando responder: quantas vezes eu já morri? Não faço a menor ideia! Vai saber quantas Fernandas estão mortas, sepultadas e esquecidas dentro de mim. Ao mesmo tempo, elas fazem parte de quem sou, já que suas cinzas foram meu nutrimento e, portanto, também me compõem.


Concordo com o Igor Sibaldi quando ele diz que a gente sabe que a troca de pele aconteceu quando olha para trás e não entende mais o porquê de determinados comportamentos ou pensamentos. É como se eles não fossem nossos, mas de outra pessoa. É exatamente o que sinto hoje quando olho para a Fernanda que não sabia falar "não". Como ela existiu? Quais eram os medos dela que eu simplesmente não tenho mais?

E pensar que fui eu mesma, essa que escreve agora, que teve que matá-la para poder existir.


Não existe metamorfose profunda sem dor. A gente tem essa tendência de querer se acomodar, de estabilizar no ponto em que chegou — afinal, chegar dá trabalho e a gente resiste a mudar de novo. Mas o processo de individuação não aceita estagnação. O que dói não é a mudança, mas a nossa resistência a ela. O nosso sistema de proteção, as nossas dinâmicas neurais, tentam nos manter onde "é seguro", mesmo que esse seguro já tenha se tornado uma prisão.


A verdade é que somos nós mesmos, de forma inconsciente e anímica, que fazemos com que o mundo projete situações para nos tirar da inércia. É o futuro nos chamando. Desde que fomos fecundados, não é possível não evoluir. “È contronatura.”* A gente tem essa ilusão de que existe um ponto de chegada, mas isso é só a nossa resistência falando. E é essa resistência que causa o sofrimento inútil.


O sofrimento inútil é o dos nossos mecanismos gritando: “aprendi a ser assim, como posso ser diferente?”. Já o sofrimento útil é o da metamorfose, da morte e renascimento. É aceitar que a incerteza faz parte da vida e que o desejo de controle é o que gera ansiedade e depressão. Algumas pessoas não permitem essa morte em vida e fazem de tudo para permanecer no mesmo estado psicológico, mas isso é o que nos adoece hoje em dia.


Àquela minha "eu" condescendente, vai todo o meu amor e respeito. Para permitir a nossa sobrevivência, ela fez o que foi necessário, cumpriu seu ciclo e, como uma folha seca, caiu no chão para virar fertilizante. Se permitir morrer é ser outsider de si mesmo, é desobedecer às próprias amarras para criar algo que ainda não existe.


E o fluxo não para. Enquanto escrevo, sinto que a Fernanda do futuro já está me chamando, observando meu ponto de chegada e planejando a minha morte. Porque é só se essa Fernanda de agora morrer, que a próxima poderá nascer. E assim será.




Glossário:

  • È contronatura: É contra a natureza / É antinatural.



Temas tratados nessa crônica:




Atenção: Texto autoral, plágio é crime.



Se o meu olhar sobre a vida ressoa com você, talvez seja o momento de pararmos de olhar apenas para os sintomas e encararmos o que está operando nos bastidores da sua psique. Eu não ofereço fórmulas prontas, mas sim um percurso corajoso para quem está disposto a desconstruir mecanismos obsoletos e resgatar a própria autonomia.


Em atendimentos individuais e online, ofereço o suporte técnico e humano para que você possa expandir sua consciência e viver com mais verdade.


Vamos além do óbvio?




 
 
 

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