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Relações líquidas: uma fase ou um destino?

Atualizado: há 1 dia


Lembro-me, como se fosse ontem, do dia em que comprei dois livros do Bauman. Era um domingo e a chegada do outono havia trazido aquela alteração no estilo de vida que toda mudança de estação traz na Europa. Eu e meu ex saímos ‘per fare una passeggiata’ e entramos na livraria Mondadori ali, no Viale Amerigo Vespucci, em Rimini.


Entrar em livrarias era uma atividade que gostávamos de fazer. Apesar de termos gostos literários muito diferentes, tínhamos em comum o fato de estarmos sempre lendo alguma coisa.


E antes de voltar para o Brasil, ter que deixar a grande maioria dos meus livros me doeu. Alguns deixei com ele, outros dei de presente para amigos e amigas, outros doei para a biblioteca perto da minha ex-casa. Mas alguns eu trouxe. Pensei: ‘Roupas eu compro de novo, mas esses livros não posso deixá-los’.


Isso foi em 2008. Li os livros logo que os comprei e, embora nunca mais tenha voltado às suas páginas, eles foram uns dos poucos que vieram comigo na mala para o Brasil. Parei agora um pouquinho para pegá-los de novo. Estão com aquele cheiro de livro velho. 

Acontece que essa sociedade líquida coincide com a era da informação. São fenômenos distintos, mas interdependentes, pois a tecnologia favorece um e outro.


Acho toda essa ‘confusão’, na verdade, um processo difícil, mas espero que de ascensão. Afinal, do jeito que estava não tinha mais como continuar. Alguns preveem que o destino do relacionamento sério está fadado a entrar em extinção. Mas depois fiquei pensando: será mesmo?


A história milenar das relações humanas e a necessidade biológica de vínculos que caracterizam a nossa espécie não são bem maiores do que esse específico período histórico que estamos atravessando?


Eu acho que tudo isso vai passar. Ou talvez seja só o desejo de quem nasceu em mil novecentos e antigamente e que, tendo introjetado determinados princípios e crenças, quer ter a esperança que mude. A última vez que comecei um relacionamento foi em 2005, gente! E agora que estou tateando essa nova realidade, confesso: estou um pouco decepcionada. 


Eu escolhi elaborar minhas questões em respeito a mim mesma e ao sentimento que tive pelo meu ex nos 18 anos em que estivemos juntos. Eu vivi o luto ‘fino in fondo’. Para que, quando estivesse pronta, fosse autêntico para mim, não uma fuga... com a famosa relação rebote. Foram dois anos e meio.


Nesse tempo, acompanhava as histórias de uma amiga minha que bem que tentou me avisar: ‘Fê, olha que a situação lá fora para relacionamentos está assim e assado, hein? Fica esperta!’. Mas eu ainda estava olhando meio que de longe e, como eu sou míope, você sabe como é, preciso me aproximar para enxergar direito.


Até que finalmente foi isso o que me aconteceu um dia: depois de muito tempo me senti atraída para tentar e resolvi ver de perto. ‘Ahimè’, eu ainda não sabia, mas estava indo ao encontro desse aspecto da modernidade que ainda não tinha experienciado, que é o das relações descartáveis.


Só que, apesar da inconstância e da brevidade dessa experiência, ela teve o seu significado. Nela, houve muita aprendizagem. Vivi na minha própria pele os aspectos psicológicos que caracterizam essas dinâmicas relacionais atuais. Entendi na prática vários conceitos, terminologias e o escambau a quatro! 


E sim, o fenômeno externo dessa vivência foi líquido, mas o interno não. Dentro, ainda estou assimilando muita coisa, pois sei que nada que passa por mim é em vão.


Mas saindo um pouco de mim e voltando aqui para o nosso assunto: vamos pensar na alquimia do líquido… Ele é maleável e, portanto, se adapta ao que o contém. Pode pegar a forma do fundo de um oceano ou de um copo de água. Mas também molda, escava, cria novos percursos. 


E ele pode mudar de estado. Para qual estado estamos indo? Até parece que estamos indo para o estado gasoso, de tão inapreensível que está a situação agora. Mas quem sabe acontece um ‘colpo di scena’ e vamos para o estado de geleira centenária?


O líquido, na verdade, pode ter a forma e a consistência que nós, como coletivo, decidimos. Não estamos fadados a um estado só.


Seria interessante também parar para refletir sobre a função dessa avalanche líquida… A velha forma estava meio chata, né? Predominância de relações simbióticas, interdependentes e não colaborativas, desbalanceadas e muitas vezes tóxicas e tediosas.


Só que agora essa corrente fortíssima nos arrancou do lugar onde estávamos. E fomos parar do lado oposto. Do lado de um individualismo e de um egocentrismo isoladores, absurdos. Estes não são nada mais que mecanismos de defesa contra o medo da rejeição. Se tudo é descartável, ninguém se machuca, mas também ninguém se nutre de verdade. É o fast-food emocional.


Ainda não temos certeza de como as coisas irão se desenvolver, mas e se for para nos levar para o outro lado para que depois pudéssemos achar um equilíbrio? Onde é possível estar com alguém em um relacionamento sério, mas preservando e cultivando a si mesmo com a ajuda do outro, mas sem se perder no outro… Porque depois dessa experiência ninguém vai querer mais abrir mão da própria identidade, né?


Bem, se a hipótese é essa, quem sabe vale a pena? Na minha opinião, relacionamento é uma coisa muito legal. Quando tem troca, cumplicidade, diálogo, paridade. Espelhamentos positivos e negativos? Também! DRs? Claro! Enfim, ser uma unidade com o outro e, ao mesmo tempo, uma unidade sozinho.


E quem não quiser, tudo bem! Ninguém é obrigado. Depois dessa mudança, está tão normalizado estar só. Afinal, hoje não é mais preciso se auto cobrar estar com alguém.


E quando não der mais? Se o relacionamento acabar? Tudo bem também! Bora processar e colocar no mundo a nossa nova pele transformada sem culpa. Mas de forma sólida, profunda e permanente, e não como algo que evapore deixando somente vazio e confusão. 


Pode ser que o cheiro de livro velho que senti seja o reflexo da minha vontade de que esses conceitos que estão sendo reais na nossa prática cotidiana de agora sejam eles mesmos, líquidos, e estejam passando.


Mas não nego a importância dessas leituras… Afinal, mesmo sendo livros que poderia ter comprado de novo aqui no Brasil, eles estavam entre os super selecionados que resolvi trazer. E isso, para mim, quer dizer muito.



Glossário:

  • Per fare una passeggiata: Para dar uma caminhada para dar um passeio.

  • Fino in fondo: Até o fim | a fundo | até o fundo.

  • Ahimè: Ai de mim | infelizmente (uma expressão clássica para lamentar algo).

  • Colpo di scena: Reviravolta | golpe de teatro | uma mudança súbita e inesperada na história.



Atenção: Texto autoral, plágio é crime.



Se o meu olhar sobre a vida ressoa com você, talvez seja o momento de pararmos de olhar apenas para os sintomas e encararmos o que está operando nos bastidores da sua psique. Eu não ofereço fórmulas prontas, mas sim um percurso corajoso para quem está disposto a desconstruir mecanismos obsoletos e resgatar a própria autonomia.


Em atendimentos individuais e online, ofereço o suporte técnico e humano para que você possa expandir sua consciência e viver com mais verdade.


Vamos além do óbvio?




Temas tratados nessa crônica:











 
 
 

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