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A Borboleta não volta ao chão


Ah sim, você bem sabe… sabe o quanto foi lento e o quanto lhe custou aquela tomada de decisão. Provavelmente, você levou anos. É que o processo de construção acontece aos poucos, e o de desconstrução também. E, diga-se de passagem: não tem como ser diferente!


Se você já se culpou por não ter percebido ou agido antes, não faça isso. Não era possível. O processo psíquico leva o seu tempo. Esta sociedade líquida na qual estamos submersos, que descarta rapidamente, não aprofunda, não processa e não cria vínculos reais, está nos adoecendo, pois é antinatural para nós, seres humanos.


Construção e desconstrução dão trabalho, e muito. Agora, quando você olha para trás, tem aquela visão geral das coisas; mas, enquanto vivia o início, houve obstáculos também. Menos do que na desconstrução? Sim, provavelmente.


Lembra? No início, houve alegria, houve amor. Houve encaixe, descoberta e certeza. Mas também houve renúncia, dúvida e dor. Ali, você também estava deixando de ser quem era para descobrir uma nova perspectiva de si mesmo. O fato de fazer isso junto com alguém (ou de se iludir que estava fazendo junto) dá o entusiasmo necessário para continuar. Dá esperança, fé no futuro, e você segue.


Só que, enquanto a dança da construção é feita a dois, a desconstrução cada um faz por conta própria e a seu modo, de acordo com as necessidades de cada alma. Afinal, não é à toa que estejam tomando direções diferentes, não é mesmo?


E é aí que vem o medo. Um medo terrível do vazio, do desconhecido. Um desconhecido que, na verdade, é você mesmo. Quem é esse "você" ao encontro do qual você está indo? Você não sabe ainda. Você quis mudar, tanto que se levou a viver tais circunstâncias, mas “adesso che ci sei”, dá medo.


É estranho, pois você sabe que não está começando do zero. Você nem percebeu, mas a verdade é que, enquanto construía com o outro, também preparava a sua bagagem interior. A própria pessoa, através dos espelhamentos que fez, ajudou você a preparar. O mesmo aconteceu do outro lado. Mas isso não muda o fato de que, quando chega a hora, dá muito medo.


Quando esse momento chega, nos apegamos mais do que nunca aos nossos mecanismos, principalmente a um dos mais comuns hoje em dia: a racionalização. Não que não seja útil; claro que é. Para mim, é muito. Aliás, recorro com frequência a esse instrumento mental.


Esta sociedade fugaz usa a resistência que a racionalização provoca em nós para continuar existindo, e ela nutre isso. Nós nutrimos isso. Só que não deixa de ser uma fuga, um "jeitinho" que damos para dar conta das coisas, já que perdemos o contato conosco e com o fluxo da vida.


Não saber quem eu serei e querer a certeza de que tal ação gerará tal consequência gera o vazio. Na racionalização, podemos justificar o outro, a nós mesmos, ou fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Vemos, ouvimos e atraímos somente o que confirma a nossa “teoria”. É o famoso viés da confirmação.


O medo é a falta de confiança, é a insegurança. Mas o fato é que, apesar de tudo e da nossa resistência, a desconstrução acontece. E, querendo ou não, você terá que lidar com isso.


Hoje, quando olho para o movimento que fiz, me pergunto: “Como eu consegui?”

Após 20 anos em outro país, onde me tornei adulta, tinha uma profissão e todo um ritmo de vida, deixei um relacionamento longo que também me ajudou a ser quem sou. Voltei. Desfiz-me de uma vida, da profissão, dos lugares, do convívio diário e do ritmo. Para recomeçar aos 45 anos, praticamente apenas com uma bagagem interior e com a consciência um pouco mais expandida? Nada mais? Nada de material, afinal voltei com poucas roupas, alguns livros, pouco dinheiro e uma profissão principal que eu não queria mais.


O vazio me deu muito medo. Por que eu acumulei tudo para ter um reset tão grande? Não era somente uma cidade. Era um país, uma língua, uma cultura, um estilo de vida, um trabalho, uma relação… Resetar tudo? Tudo de uma vez?


Levei 20 anos. Essas duas décadas compreendem o tempo de construção, maturação e saturação. Foi tudo muito lento. Cada fase foi vivida, absorvida, processada e observada. Enfim, não teve nada de líquido ou superficial. Foi tudo muito pensado.


É que dentro desse macroprocesso existiram dezenas de outros, menores, de morte e renascimento que contribuíram para o maior. Se pararmos para pensar, o voo da borboleta é o macroprocesso que coroa o esforço invisível de cada célula que se reorganizou no silêncio do casulo.


Para dar conta de uma mudança tão profunda, precisei que todos esses processos acontecessem contemporaneamente: raízes, relação, trabalho. Pois apenas uma questão, sozinha, não sustentaria uma mudança de tamanha proporção. A minha racionalização, aliada à minha resistência, não deixaria.


E, como bem sabemos: a mudança acontece quando a dor de permanecer o mesmo é maior do que o medo de mudar.


O custo que se paga por uma tomada de decisão é sempre muito alto. O medo do vazio e o sentir-se obrigado a recomeçar trazem desorganização. É como a nossa borboleta: na versão lagarta, ela tinha uma organização; agora, tem outra. E nessa nova condição, ela voa! Já pensou?


Existe um apego ao que éramos, uma espécie de dó de deixar de ser aquilo que um dia foi novo para nós. E talvez seja exatamente por sabermos que a transformação é um caminho sem volta que criamos resistência.


A borboleta nunca mais voltará a ser lagarta; nunca mais terá a perspectiva de contato com a terra que a lagarta tinha. Será outra coisa, com novas belezas e novos desafios.


E você? O que está precisando desconstruir hoje para que a sua bagagem interior ganhe asas? 



Glossário:

Adesso che ci sei: Agora que você está aqui | Agora que você existe/está presente.



Temas tratados nessa crônica:




Atenção: Texto autoral, plágio é crime.



Se o meu olhar sobre a vida ressoa com você, talvez seja o momento de pararmos de olhar apenas para os sintomas e encararmos o que está operando nos bastidores da sua psique. Eu não ofereço fórmulas prontas, mas sim um percurso corajoso para quem está disposto a desconstruir mecanismos obsoletos e resgatar a própria autonomia.


Em atendimentos individuais e online, ofereço o suporte técnico e humano para que você possa expandir sua consciência e viver com mais verdade.


Vamos além do óbvio?




 
 
 

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