“Afferrare la realtà”
- Fernanda Azevedo

- 23 de fev.
- 3 min de leitura
Atualizado: 15 de mar.
Eu estava observando uma situação, olhando para ela sob todos os ângulos possíveis. O meu lado, o lado da outra pessoa, fatos, falas concretas, hipóteses… enfim…
Mesmo cansada, eu repetia para mim mesma: “voglio afferrare la realtà”* dessa situação. De repente, parei para pensar nessa palavra: “afferrare”. Por que logo ela? No português, o que mais se aproxima seria “apreender”, mas não me satisfez. Sabe quando a tradução não alcança o que a alma quer dizer?
Você costuma prestar atenção nas palavras que te vêm assim, fortes? Já parou para pensar que as escolhas do nosso vocabulário dizem muito sobre o nosso estado psíquico?
Vamos analisar essa, por exemplo: “Afferrare”. A origem vem do latim medieval, o que já remete a algo arcaico. Ela vem da composição de “ad” (direção) e “ferrum” (ferro). Portanto, significa literalmente prender com um ferro. Um movimento decidido, preciso, uma ação de força bruta. Quando vi isso, pensei: “Pra que eu fui pesquisar?” e ri de mim mesma!
“Eh già!”* Meus traumas me levaram a isso. Desde pequena aprendi a ser uma “leitora de campo”. Meu sistema está condicionado ao vício de recolher informações para saber como lidar da melhor forma — ou seja, a menos traumática possível — com o ambiente, só para ter aquela falsa ideia de segurança. Quem nunca, né?
Mas percebi que querer “afferrare” com esse excesso de análise estava me levando à exaustão. Notei o quanto esse mecanismo já ficou obsoleto e o quanto ele é... chato! Sem um trabalho verdadeiro de expansão de consciência, a gente vira o ratinho na roda: gira e não chega a lugar nenhum. É a armadilha de tentar categorizar a vida como “8 ou 80”, preto ou branco. E isso é danado de perigoso, porque é extremamente limitante.
Quando parei para notar o que estava fazendo, pensei: “Meu Deus, onde estou com a cabeça de cismar que quero entender alguma coisa?” Existe algo na vida que a gente entenda perfeitamente?
A verdade absoluta não existe; é impossível “afferrarla”*. Ela é fluida, subjetiva e energética. Tentar agarrar a verdade com a força do ferro é como tentar fechar o punho para segurar a água: quanto mais força você faz, mais ela escorre pelos dedos. A verdade não se prende; ela se sente com a palma da mão aberta.
Eu sei, gente! Fazer isso é difícil pra caramba. É o que mais vejo na clínica e em mim mesma: os mecanismos que nos sustentaram por anos não cedem por mágica. Eles resistem. Eles tentam nos segurar não só a ferro, mas a fogo também. E insistir no “afferrare la realtà” é apenas uma ilusão do ego. É a promessa de que “se eu souber tudo, sofrerei menos”. Mentira. O excesso de saber é puro controle e, muitas vezes, apenas nos enrijece mais.
Foi um percurso gostoso bater de frente com isso. Percebi que eu estava tão “assuefatta”* com esse hábito que nem sentia mais o cansaço que ele me trazia. Sem falar na energia vital que ele suga!
Hoje, entendo que a real capacidade de escolha não nasce da força de quem segura o ferro, mas da coragem de quem solta o gancho. Escolher não é definir o que a realidade é, mas decidir como eu danço com o que ela está sendo.
Ao desistir de "agarrar" o mundo, deixo de ser prisioneira da minha própria análise para ser testemunha da minha existência. Talvez a paz não esteja somente no entender o fluxo, mas em finalmente aceitar que eu também sou parte dele. E que, para fluir, as mãos precisam estar livres.
Glossário:
Voglio afferrare la realtà: Quero agarrar/apreender a realidade.
Afferrare: Agarrar, prender com ferro, captar algo com força.
Eh già!: Pois é! / É bem assim!
Afferrarla: Agarrá-la / Capturá-la.
Assuefatta: Habituada, viciada ou anestesiada pelo costume.
Temas tratados nessa crônica:
#psicoeducação #autorrevelação #reestruturaçãocognitiva #metáforaterapêutica #aliançaterapêutica #análiseexistencial #humanismo #intelectualização #consciênciafenomenológica #gestaltterapia #hipervigilancia #mecanismosdedefesa #intelectualização #psicologiaclinica #saudemental #trauma #leituradecampo #flexibilidadepsicologica #autonomia #fenomenologia #subjetividade #presença
Atenção: Texto autoral, plágio é crime.
Se o meu olhar sobre a vida ressoa com você, talvez seja o momento de pararmos de olhar apenas para os sintomas e encararmos o que está operando nos bastidores da sua psique. Eu não ofereço fórmulas prontas, mas sim um percurso corajoso para quem está disposto a desconstruir mecanismos obsoletos e resgatar a própria autonomia.
Em atendimentos individuais e online, ofereço o suporte técnico e humano para que você possa expandir sua consciência e viver com mais verdade.
Vamos além do óbvio?



Comentários