A raiva que move montanhas
- Fernanda Azevedo

- 1 de jun.
- 5 min de leitura
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Outro dia lembrei do comportamento de uma pessoa comigo. Me surpreendi com o fato de que, na hora, eu não percebi que não tinha sido nada legal. Senti um desconforto, sim, mas como não tinha entendido bem, eu só fiquei ali, atônita. Quem nunca, né? Quem nunca demorou um pouco para entender que o que foi dito foi, na verdade, um ato agressivo-passivo da parte do outro?
Quando esse insight chegou, senti meu estômago queimar, a cabeça ferver e o corpo se agitar, querendo buscar uma forma de eruptar a sua indignação. Foi aí que soltei veementemente no ar o gesto com a mão e gritei mentalmente na cara da pessoa: “Ma vaffanculo, va!”
Bom, esse descarrego que fiz através do corpo e da imaginação bastou para impedir que o leite derramasse, mas ele continuou fervendo, mesmo que a fogo baixo.
Enquanto ainda pensava: “Mas quem essa pessoa pensa que é para me tratar assim?”, fui vendo se formar em mim uma nova e específica descoberta: um novo confim precisava ser criado. Já havia construído alguns e, na preocupação de mantê-los em boa atividade, não tinha me atentado para quantos outros eu ainda precisava erguer para me individuar melhor como ser humano.
Mas depois que vi, pude sentir. Senti o quanto o pouco caso e a falta de cuidado da outra pessoa me feriram. Vários gatilhos se acionaram contemporaneamente. Parecia como nos filmes de ação norte-americanos onde, numa perseguição, aparecem vários carros da polícia com todas as sirenes ligadas, fazendo juntas um barulho ensurdecedor.
Eu precisava reagir. Eu não podia deixar as coisas assim. Pensei: “O que vou fazer com isso?” Com a pessoa: nada. Ela nem tem o nível de entendimento para compreender o que fez e também porque não valia mesmo a pena. Ela talvez só iria perceber a minha mudança de atitude devido a esse confim que notei que precisava instaurar, mas não seria uma exclusividade dela. Uma vez que aprendi, iria aplicá-lo no geral.
Aliás, depois cheguei à conclusão de que, além de não reagir com a pessoa em mérito ao que ela fez, talvez eu devesse até agradecê-la. Afinal, foi ela quem me levou a essa descoberta.
Mas a raiva continuava ali, fervendo. E nessa fervura ela foi transmutando o que tinha que transmutar. E, como em qualquer processo alquímico, ela foi me mostrando verdades.
E ver determinados aspectos e poder ressignificá-los foi me liberando uma energia tal que nem te conto! Energia vital mesmo. Enquanto eu não via, eu continuava jogando para mim. Eu retrofletia. A passividade e a autosabotagem, nas suas várias formas, não são nada além de maneiras de lançar contra si mesma uma raiva contida que você sente (ou sentiu por anos) pelo externo.
Eu precisei da lembrança desse momento para dar o start no processo. E por que logo agora, já que algo do tipo já tinha acontecido em outras situações? Porque finalmente eu estava pronta para ver; finalmente eu já tinha recursos interiores para poder administrar aquilo.
É como quem está aprendendo italiano, por exemplo. Não dá para a pessoa entender o uso do conjuntivo se ela ainda está no presente do indicativo. Foi a mesma coisa comigo. Acontece que o nosso Self nos permite avançar somente quando estamos prontos.
A raiva me fez ver, me fez criar novos confins, e a fervura liberou energia. Com essa energia nova à disposição, eu foquei no que era realmente importante: cuidar da minha vida e não me preocupar com o que o outro possa estar pensando sobre mim.
A raiva te ajuda a delinear mais quem você é. Te mostra quais são os seus princípios e… te mostra o quanto você foi violada até então, te mostrando inclusive o que pode estar obsoleto. Você também pode perceber a sua raiva e entender que hoje ela não faz mais sentido algum. E ver isso pode te ajudar a desacelerar um pouco e a engatilhar menos.
É importante observar que a raiva te ajuda no seu processo de individuação, ou seja, te mostra e te dá direções para você se conhecer melhor. Principalmente para conhecer quais são os limites que você não quer que o outro ultrapasse. Mas a raiva saudável não te leva a ser individualista, muito pelo contrário. Ela permite que a sua fronteira de contato com o outro seja mais autêntica e mais fluida.
Depois dessas assimilações e desse navegar em mim, me veio uma outra lembrança: daquela vez — e logo percebi que não foi a única — onde eu também fui agressiva-passiva. Fui em busca da contextualização, afinal, se conseguir entender o porquê das minhas ações, quem sabe vou entender melhor o outro?
Percebi que a passividade agressiva pode vir de alguns lugares como: o não conseguir ser direta e assertiva num posicionamento com uma pessoa por medo de perder o apoio ou por insegurança em relação ao próprio pensar, mas principalmente do engatilhar com uma pseudoameaça de sofrer uma desvalorização, ou uma humilhação, ou uma injustiça, ou o abandono, ou a rejeição… Sim, é realmente muita coisa, são muitas as possíveis ameaças e o nosso sistema fica ali no estado de alerta, se perguntando sempre: “Chi va là?”
Então cheguei à conclusão de que a atitude agressiva-passiva parte desse medo inconsciente e subjetivo do que pode vir, e que muitas vezes está desconectado da realidade.
A raiva do ego (que, quando não transborda de forma literal, sai assim, através da agressividade-passiva) quer punir o outro de alguma forma por uma questão que tem a ver com quem a emite, mas pode gerar no outro um gatilho — gatilho esse que fala de quem sofreu essa ativação. É o famoso “Doeu? Pega que é teu”.
Portanto, podemos concluir que se, por um lado, a raiva alquímica move montanhas interiores para nos devolver a dignidade, a raiva do ego apenas projeta no outro a nossa própria dor, tentando queimar o fora para não ter que olhar para dentro.
E você, como tem avaliado a sua raiva?
Fernanda Azevedo
Glossário:
Ma vaffanculo, va! | Mas vá tomar no...", "Ah, vá se catar!
Chi va là? |"Quem vai lá?", "Quem vem lá?".
Expressão histórica usada por sentinelas para identificar possíveis invasores em uma fronteira. Psicologicamente, ilustra a hipervigilância mecânica de um sistema nervoso traumatizado pelas feridas como a da rejeição e do abandono. É o ego montando guarda em uma postura defensiva crônica, antecipando o próximo golpe antes mesmo que ele aconteça.
Atenção: Texto autoral, plágio é crime.
Se o meu olhar sobre a vida ressoa com você, talvez seja o momento de pararmos de olhar apenas para os sintomas e encararmos o que está operando nos bastidores da sua psique. Eu não ofereço fórmulas prontas, mas sim um percurso corajoso para quem está disposto a desconstruir mecanismos obsoletos e resgatar a própria autonomia.
Em atendimentos individuais e online, ofereço o suporte técnico e humano para que você possa expandir sua consciência e viver com mais verdade.
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