Incomodar-se faz bem
- Fernanda Azevedo

- 18 de jan.
- 4 min de leitura
Atualizado: 24 de jan.
A sensação era de incômodo, mas juro que me esforcei para me “ajeitar” naquele lugar psíquico. Movia-me para um lado, depois para o outro. Sei que você sabe como é, pois certamente já passou por isso: ser resiliente no desconfortável.
E quando aconteceu com você, como progrediu (ou regrediu)? No meu caso, esse remexer para lá e para cá só serviu para aumentar o danado do desconforto. Afinal, não trazia a tão desejada solução da plenitude mental; pelo contrário, trazia cada vez mais fadiga.
E quando a gente cansa, não tem outra saída: é preciso parar. É parar para não desfalecer, não é mesmo? Sei que isso também já aconteceu com você. A gente sente muito, vem aquele sentimento de culpa: “Poxa, e se eu tentasse só mais um pouco? Quem sabe estou quase lá?”. Mas vai saber, né? Pode ser que sim, pode ser que não. Acabamos por chutar o balde mesmo e ligar aquele botão bacana que começa com F e termina com ODAS. Aliás, eu amo esse botão! Quando o uso, é uma satisfação, uma libertação que nem te conto! Como se diz em italiano: “È proprio una goduria!”.
É que, para eu chegar até lá — até o apertar do botão — eu levo um tempo. Às vezes rápido, às vezes bíblico. Depende da situação. No caso dessa situação específica, foi bíblico. Sei lá, acho que uns 35, 40 anos!
Como eu disse no início, algo estava me incomodando e eu, sem saber exatamente do que se tratava, utilizei esse instrumento de dois gumes chamado "resiliência" para ver se conseguia resolver assim, do nada, sem nem enxergar o que precisava ser resolvido. É até engraçado, né? Querer consertar o que você nem sabe direito o que é. Mas quem nunca? Posso apostar que você também já tentou tapar o sol com a peneira!
O cansaço me levou a apertar o botão. Ao apertá-lo, o incômodo — que nada mais era do que a peneira — saiu de cena. E a verdade chegou com tudo. Queimando. Não é à toa que a raiva vem associada a algo que arde.
Eu estava descoberta. Não tinha nem uma peneirinha para me ajudar. Não era apenas incômodo: era raiva pura. E raiva velha, que ficava queimando debaixo do tapete há anos. Vivia sendo acionada por gatilhos e, todas as vezes, eu achava que era só um "incômodozinho", colocava a resiliência para trabalhar e pronto. Até que deu certo por anos! Caspita! Por décadas!
Era uma raiva nua e crua. Era a minha raiva infantil da espera. A Fê de 6, 7, 8 anos de idade que só podia esperar, e calada. Que não podia reclamar o seu direito de atenção, proteção e carinho. Que não tinha certeza se era querida, se era vista, se era prioridade. Essa dúvida, essa espera, doía-lhe muito. Mas ela não podia falar nada. Foi acumulando a raiva de ter que aceitar as coisas como eram, sem poder gritar que não as considerava justas. Teve que aceitar pessoas e situações; afinal, quem era ela, uma menininha, para poder mudar alguma coisa?
Sabe aquela frase do Jung que gira direto na internet: “Até você tornar o inconsciente consciente, ele irá dirigir a sua vida e você vai chamar isso de destino”? Poxa, essa frase, que já está tão rodada que parece clichê, de clichê não tem nada. Acho que não existe verdade maior do que essa em toda a psicologia.
Na milionésima vez que esse gatilho específico foi acionado, eu finalmente pude ver: quão difícil, doloroso e incompreensível era para uma criança ter que esperar 15 dias, às vezes mais, para ver alguém importante para ela! Numa época sem internet, sem celular e muito menos WhatsApp. Que noção ela tinha desse tempo? Como vivia essa espera silenciosa da qual não podia reclamar? E como era a expectativa do encontro que era fracionado, dividido entre outras pessoas e afazeres, e que passava tão rápido? Pouco mais de 24 horas e olhe lá.
É verdade que esse trauma também me forjou. Entrei na idade adulta com uma paciência extrema e autogestão emocional para esperar o tempo das coisas, dos encontros e das realizações. De certa forma, isso me sustentou no percurso de morar fora do país por tantos anos.
Mas hoje, finalmente, me ajoelhei. Coloquei-me à altura da minha pequena Fê e vi o quanto foi difícil para ela e o quanto ela foi forte. Peguei-a no colo e lhe disse: “Você não precisa esperar mais ninguém, pois eu estou aqui com você o tempo todo!”.
Assim, estou limpando o meu campo de atrair pessoas que ativem esse gatilho e libertando as pessoas do meu convívio de fazê-lo. Posso esperar, sim, pelo que vale a pena, mas agora somente na posição de adulta. Como sei a diferença? Na posição adulta, a espera não dói. É uma espera serena, que sabe que o encontro vai acontecer. Já vivi essa espera inúmeras vezes. Mas, se doer — e eu também conheço essa dor — é o gatilho. Sou eu criança precisando do meu próprio colo.
E agora que a pequena Fê está devidamente aninhada e ouvida, posso voltar a usar o meu botão favorito com muito mais estilo. Porque a resiliência é ótima, mas saber a hora de mandar tudo para aquele lugar com a consciência limpa... ah, minha gente, isso sim é uma verdadeira goduria!
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