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De ilusão também se vive

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seja muito bem vinda(o)! Boa leitura.


Outro dia me levei para passear e depois parei para tomar um “cafezim” coado com pão de queijo quentinho, recheado de queijo canastra derretido e geleia de cebola… E, enquanto degustava essa delícia típica mineira, fiquei refletindo sobre uma troca de mensagens que tinha tido com uma grande amiga.


Tínhamos relembrado um período de transição importante que ela viveu há uns cinco anos e nos recordamos também de uma grande ilusão que ela alimentou na mesma época. Na ocasião, acompanhei todo esse percurso nos mínimos detalhes, durante todo o tempo em que sustentar aquela fantasia foi necessário para o equilíbrio psicológico dela. Aliás, eu também acreditei piamente naquela ilusão — afinal, estava torcendo por ela de camarote!


Enfim, eu estava ali, tomando o meu “cafezim” coado enquanto pensava no fato de que a ilusão — como quase todas as coisas — é uma faca de dois gumes: pode ser tanto prisão quanto via de saída.


Naquele momento, também ri de mim mesma, lembrando das minhas próprias ilusões. Das passadas e das que provavelmente estou vivendo agora, mas que ainda não consigo enxergar com clareza. É que a ilusão tem essa peculiaridade: você só tem certeza de que era ilusão mesmo depois que sai dela.


Também lembrei de quantas vezes me julguei quando caía o véu de uma miragem… O que não deixa de ser um aspecto a ser considerado, afinal, é na desilusão que a gente aprende. É que, quando a ficha cai, dá um sentimento de vergonha e de inadequação, pois a queda mexe com as crenças que temos sobre o nosso próprio valor.


Viajando na maionese sobre tudo isso, resolvi chamar de "ilusão estrutural" aquela que é formada pelas nossas introjeções. Essas, sim, podem se tornar verdadeiras prisões.


Digo prisões porque as absorvemos desde muito pequenos. Sem que possamos perceber — e muito menos controlar —, elas vão criando raízes no nosso inconsciente e agindo por meio de nós. É uma prisão exatamente por ser algo de que você não consegue fugir. Só que, em muitos casos, você não foge simplesmente por não saber que está preso. Como sair do que eu sequer conheço?


Vou dar um exemplo genérico só para contextualizar: imagine uma pessoa que cresceu em uma família de advogados. Passou a infância e a adolescência ouvindo sobre o assunto, percebeu o status e o respeito que os pais tinham, recebeu conselhos, sentiu a projeção que os pais faziam nela e viu nisso a oportunidade de satisfazê-los. Observou também as facilidades de um caminho que alguém tão próximo já tinha trilhado e acabou escolhendo essa mesma estrada quase que naturalmente.


Para alguns, pode ser que se trate de um autêntico caminho da alma; mas para outros, não. Pode ser que, sem todos esses estímulos e cobranças invisíveis, ela tivesse escolhido um rumo completamente diferente.


Bom, que as ilusões sejam também prisões, já sabemos bem. Mas e quando elas funcionam como um meio de transporte para sairmos de situações que não ressoam mais com a gente?


Aqui entra o que chamei, no meu divagar mental, de "ilusão via de fuga". Já vou começar logo com um exemplo bem clichê, mas que ilustra bem: a pessoa está em um casamento ou relacionamento longo que já faliu internamente. No entanto, para conseguir lidar com a dor inevitável daquele fim, a mente dela cria uma ilusão temporária.


Pode ser que ela fantasie que, com aquela outra pessoa por quem ela acha que está interessada, tudo vai ser infinitamente melhor do que a realidade atual. Ou pode ser que ela imagine que uma nova mudança mágica vai resolver todos os seus problemas de uma vez.


O que acontece é que encarar o medo de recomeçar, as consequências práticas do término e o vazio do dia seguinte é difícil demais. Então a mente — sem que a gente perceba e em colaboração com a nossa busca por sobrevivência — cria esse analgésico chamado ilusão, que dá as forças necessárias para que a pessoa finalmente dê o passo de ruptura.


Depois, muito provavelmente, ela vai ver que não era nada daquilo. Mas não importa. Pode até ser que essa nova pequena frustração cause um pouco de dor, mas a ilusão terá cumprido o seu papel principal: tirar a pessoa da inércia, daquele lugar que já não fazia mais sentido para a sua jornada pessoal.


Hoje me sinto grata pelas minhas ilusões. Por todas elas. Mesmo as que me aprisionaram. Fiquei prisioneira enquanto precisei, enquanto me sentia segura nelas. E, quando o incômodo chegava, eu usava a “ilusão via de fuga” para me ajudar a sair.


Sei que, como a minha amiga — e provavelmente como você —, eu ainda tenho uma coleção delas guardada no bolso. De algumas, talvez eu nunca consiga (ou precise) me libertar; de outras, sei que o prazo de validade já está vencendo.


No fim das contas, é essa dança de construir miragens para depois demoli-las que vai nos esculpindo. Afinal, de ilusão também se vive! 


E você? Qual foi a última ilusão que te deu o empurrão que você precisava para mudar de rumo?


Fernanda Azevedo



Atenção: Texto autoral, plágio é crime.



Se o meu olhar sobre a vida ressoa com você, talvez seja o momento de pararmos de olhar apenas para os sintomas e encararmos o que está operando nos bastidores da sua psique. Eu não ofereço fórmulas prontas, mas sim um percurso corajoso para quem está disposto a desconstruir mecanismos obsoletos e resgatar a própria autonomia.


Em atendimentos individuais e online, ofereço o suporte técnico e humano para que você possa expandir sua consciência e viver com mais verdade.


Vamos além do óbvio?




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