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A peste da nossa impotência

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seja muito bem vinda(o)! Boa leitura.


Eu estava aqui pensando com os meus botões: ô coisinha danada é a tal da sensação de impotência, né? É um trem que a gente tenta fugir de todo jeito, como se fosse uma peste. Talvez porque, para o nosso ego, seja mesmo uma peste. A peste de se ver como um ser humano incompleto, coerente (sim, isso mesmo: coerente, e não incoerente), medíocre e que tem uma grandíssima dificuldade de superar a si mesmo.


Incompleto porque estamos sempre em busca de algo. E não, não, gente! Não estou pensando no partner no sentido romântico. Isso seria clichê demais! Acredito que esse sentimento de incompletude tenha a ver com a gente mesmo. Porque estamos sempre a caminho de nós mesmos, em direção ao nosso advir anímico. E esse é um processo que não tem fim enquanto vivemos. Portanto, é uma sensação angustiante, mas da qual não podemos nos libertar. Ela nos acompanha o tempo todo. Seguimos em direção a um futuro de nós: algo que ainda não somos, mas que já habitamos, carregando nossa história e, inclusive, a nossa insuficiência. 


E há uma grande chance de sermos medíocres onde somos insuficientes, né? Todos nós somos medíocres em algum nível. Aliás, o insight “Eu sou medíocre” está entre as percepções universais mais úteis ao nosso crescimento que precisamos ter, pois ele nos redimensiona, dá aquela abaixada na nossa bola e nos leva à humildade. É importante olharmos para o nosso valor e para as nossas qualidades, mas nada nos move mais do que olhar para a nossa mediocridade. Porque, enquanto você não olha para ela, você fica parado no plano da ilusão, do "quando", do "se", das desculpas.


E olhar para ela dói, viu? Ô se dói! O nosso ego fica todo jururu, porque ele queria tanto ser um herói que dá conta de tudo e que só não consegue por motivos externos, nunca por uma limitação própria. Mas, quando você olha para ela de verdade, pode dar passos mais firmes em direção ao que realmente pode ser, fazer e oferecer. Ou pode acontecer também de você fazer uma análise da realidade, chegar à conclusão de que aquilo não é plausível para você e tomar outro rumo, mais condizente com a sua realidade profunda.


E assim chegamos à coerência. Essa me pega, viu? Putz, se me pega! E não só a mim! Na clínica, muitos clientes trazem esse tema nas sessões, seja em relação a si mesmos, seja através da lamentação de uma situação relacional com o outro.


A coerência está intimamente ligada aos nossos princípios e valores. É, portanto, algo de muito profundo. Reclamamos e nos culpamos pela nossa incoerência e apontamos o dedo uns para os outros. Mas isso é só o que a gente vê do lado de fora: a nossa mudança de opinião repentina, as contradições ou as mentiras... São todas máscaras para nos mantermos coerentes com os nossos traumas e com as nossas crenças, sejam elas limitantes ou potencializantes.


É por causa dessa coerência que você continua tendo problemas nos relacionamentos, caso tenha aprendido na infância que relacionamento é sofrimento e um lugar onde, na verdade, não existe amor — mesmo que você conscientemente diga a si mesmo que quer o amor. Por outro lado, se você tem a crença de que é somente através do trabalho duro que vai obter sucesso, você vai ter a disciplina e a resiliência para trabalho duro e vai chegar onde quer chegar.


A coerência, por conversar com as nossas feridas, pode ser muito reativa (lembre-se: a passividade também é uma forma de reatividade), e é aí que entra o sentimento de impotência: basta uma informação a mais, um comportamento que toca um princípio seu e já foi… você já mudou de ideia e redirecionou o sentimento, o pensamento e a atitude, muitas vezes sem olhar de forma madura para o que está acontecendo. E isso gera impotência.


É aí que entra a dificuldade que temos de superar a nós mesmos. O que eu não olho me domina, me guia e define a minha vida. Mas e se, além de não fazer mais sentido algum, isso estiver me sabotando? Como mudar essa coerência interior e desobedecer a mim mesma para criar novos percursos neurais?


Fazer nascer o novo a partir do velho de livre e espontânea vontade? Bem, quando acontece, é um dos maiores atos de coragem que podemos ter, e também um dos mais difíceis. Mas isso quase nunca acontece assim, através do simples ato de desejar. Quantas vezes não estivemos ali, prontos para nos jogarmos, o desejo chamando, mas algo nos bloqueia, nos paralisa e nos sentimos impotentes?


Ah, os velhos mecanismos… sono duri a morire! Geralmente a mudança vem pela dor mesmo. A alma vai criando situações, projetando no fora o desconforto para te empurrar para uma expansão de consciência, e só depois chega a transformação. Ironicamente, o que o ego carimba como 'peste' é justamente o choque de realidade que nos salva de nós mesmos. E quem sabe só assim, depois de atravessar tutti questi gironi dell'inferno, aceitando a nossa bendita peste humana, a sensação de impotência vá ficar um pouco menor.



Fernanda Azevedo


Glossário:

  • Partner: Palavra em inglês, mas muito utilizada no italiano para se referir ao parceiro ou parceira afetiva. 

  • Sono duri a morire: São duros de morrer | São difíceis de morrer (equivalente ao nosso "vaso ruim não quebra" ou "costumes antigos morrem devagar") 

  • Tutti questi gironi dell'inferno: Todos estes círculos do inferno. 



Atenção: Texto autoral, plágio é crime.



Se o meu olhar sobre a vida ressoa com você, talvez seja o momento de pararmos de olhar apenas para os sintomas e encararmos o que está operando nos bastidores da sua psique. Eu não ofereço fórmulas prontas, mas sim um percurso corajoso para quem está disposto a desconstruir mecanismos obsoletos e resgatar a própria autonomia.


Em atendimentos individuais e online, ofereço o suporte técnico e humano para que você possa expandir sua consciência e viver com mais verdade.


Vamos além do óbvio?




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