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A força que as mulheres têm de ir embora


Apesar de nem sempre conseguir, gosto de me esforçar para ter cuidado com as generalizações.


É verdade que existem mulheres que não conseguem, não podem ou não querem ir embora… E é verdade também que existem homens que são verdadeiros parceiros e que potencializam a mulher. Mas hoje não vou destrinchar esses aspectos.


Vou falar da maioria dos casos mesmo, ou seja, de como o desserviço emocional dos homens em relação às mulheres é tão impactante que, se observarmos através da lente alquímica, até parece ser um verdadeiro rito de passagem. O que, não à toa, nos obriga muitas vezes a ir embora.


Se paro para observar ao meu redor, são tantos casos. Sei lá, 80%? Mais? É assustador!

E pensar que o que uma mulher realmente precisa é de segurança emocional. É basicamente isso. Em contrapartida, é o que o homem tem mais dificuldade de dar. Engraçado, né? Na maioria das vezes, uma mulher é capaz de superar qualquer obstáculo com seu parceiro se ela se sente segura com ele. E olha que, felizmente para os homens e infelizmente para as mulheres, nós temos muita paciência e muita resiliência perante a imaturidade deles. Cultural? Claro que sim. Já sabemos disso.


Isso pode durar semanas, meses, anos ou até décadas, dependendo do tipo de relação, da estrutura psicológica das partes e, consequentemente, dos mecanismos que se instauraram. Só que, por sorte, apesar de a nossa tolerância ser, muitas vezes, longa, ela não é eterna!


Já fomos primitivas, selvagens e livres. Parceiras na cocriação do novo, do prazer, da sobrevivência como espécie. Depois começamos a ser subjugadas, moduladas, condicionadas, objetificadas, subestimadas, podadas de nossos direitos, de nossa voz, dos nossos desejos e talentos. Até que finalmente começamos um lento e doloroso processo (ainda em curso) de emancipação…

Lembro-me dos conselhos da minha avó materna. Eu tinha 12 ou 13 anos, e ela me falava que, quando eu casasse, tinha que fazer o que o homem queria, quando ele queria. Eu não entendia muito bem, mas tive a impressão de que estava falando em termos de intimidade. Ela estava somente tentando me transmitir o que lhe haviam ensinado e o que ela percebia na dinâmica relacional entre homens e mulheres.

Minha avó materna ficou viúva do seu primeiro marido (o qual, pelo que sei, amou muito), mas, apesar do tabu da época, conseguiu se separar do seu segundo marido, meu avô. Ela era analfabeta e criou sete filhos. Deu assistência na maternidade de todas as filhas. Curou o umbigo de todos os netos e de muitos bisnetos. Ela foi o centro e a estrutura da família, sozinha. Meu avô, apesar de ter sido um pai afetuoso, dizia para minha mãe que ela não precisava estudar; afinal, um dia ela iria se casar.

Minha mãe casou aos 19 anos, virgem. Casada, fez o segundo grau; depois de separada, o terceiro. Eu nasci quando ela tinha somente 21 anos e, aos 28, ela decidiu se separar do meu pai com três filhos pequenos: 6 anos, 2 anos e um bebê de 8 meses. Ela optou por enfrentar tudo sozinha. Tornou-se uma “guerreira” por obrigação, tendo que lidar com as consequências emocionais e relacionais, positivas e negativas, que esse estereótipo a obrigou a carregar. Mas ela preferiu isso a ter que aguentar um ano a mais a falta de maturidade do meu pai na época.

A castração social que aconteceu ao longo dos séculos nos levou a acreditar nesse discurso do relacionamento e da “segurança” com um homem. Mas isso não passa de uma propaganda enganosa. Acreditamos numa insegurança que, na verdade, não temos. A verdade é que, na maioria das vezes, somos muito mais fortes, seguras e determinadas do que os homens.

Só que, sem um trabalho minucioso de expansão de consciência, não atrair e não repetir padrões é, praticamente, impossível. E é claro que eu repeti, mas também aprendi, apesar da dor, a ir embora. Já estava no meu sistema familiar e no de muitas de nós, já que esse padrão gerado não é nada mais, nada menos do que o fruto da nossa sociedade: “Olha você, para entrar em contato consigo mesma, para adquirir esse direito, primeiro tem que passar pelo sistema. Tentar, se esforçar, se desgastar e, somente quando você estiver quase sem forças e a relação totalmente desgastada — se você conseguir, se você não tiver introjetado tudo ao ponto de ter se desconectado totalmente de você mesma —, aí sim você pode sair. Mas vai ter que fazer o trabalho sozinha.”

Minha vó foi a primeira da família a se separar; minha mãe, a primeira a fazer faculdade; e eu, a primeira a sair de casa para ir viver em outro país. Sei que na sua família também é assim: gerações de mulheres que estão dando passos dolorosos rumo à emancipação.

Mas como essa parte nossa, que é esse conjunto de fatores que vai da questão hormonal-biológica à sociocultural, acaba por cair nessas armadilhas, apesar da nossa força? E vamos com fé mesmo, né? Parece até um paradoxo: como é possível ser forte e tão ingênua ao mesmo tempo?

Não será um chamado interior? Tipo: “Olha, você está cegada pela ilusão. As coisas não são assim. Mas vai, vai lá fazer esse percurso. São as dificuldades que você vai enfrentar nele que te trarão de volta a si mesma”.

E, dos primeiros tempos, a paciência, resiliência, determinação e até teimosia vão se tornando cansaço, apatia, insegurança, nervosismo, confusão. Até que a decepção finalmente quebra a imagem da salvadora e nos obriga a usar toda a energia que gastávamos cuidando do outro para nós mesmas. E é aí que finalmente vamos embora. Emocionalmente ou literalmente, pegando as coisas e indo.

A exaustão que nos leva a pôr a mão na maçaneta, geralmente, não é por falta de amor, mas por necessidade de se achar após ter-se perdido no outro. E é o que fazemos. Enquanto muitos homens, por condicionamento, buscam distrações para silenciar o vazio e trocam rapidamente de porta, nós, mulheres, usamos essa dor como matéria-prima para o refazimento de uma arquitetura interior inteira. E dos nossos restos renascemos.

Então é aqui que acontece a verdadeira transformação alquímica. O "ir embora" não é o ponto final, mas a grande iniciação. Ao fecharmos a porta atrás de nós, ativamos um tipo de GPS interior que estava silenciado pelo barulho das necessidades alheias. É o momento do nosso redirecionamento. Descobrimos, muitas vezes sob o impacto do choque, que a segurança que buscávamos no outro era, na verdade, uma força que já habitava em nós, mas que estava sendo usada para sustentar o mundo de outra pessoa. Quando paramos de focar no outro e trazemos a lente para nós mesmas, a mágica acontece. Demora, mas acontece.

Não é o fim de uma vida; é o nascimento de uma mulher que não tem mais medo da própria companhia e que descobriu que pode, sim, caminhar sozinha se quiser ou recomeçar a vida afetiva, mas dessa vez de forma diferente.

Ir embora é, no fundo, o rito de passagem que nos devolve a nós mesmas. É onde deixamos de ser coadjuvantes da imaturidade alheia para nos tornarmos as protagonistas da nossa própria liberdade.




Temas tratados nessa crônica:




Atenção: Texto autoral, plágio é crime.



Se o meu olhar sobre a vida ressoa com você, talvez seja o momento de pararmos de olhar apenas para os sintomas e encararmos o que está operando nos bastidores da sua psique. Eu não ofereço fórmulas prontas, mas sim um percurso corajoso para quem está disposto a desconstruir mecanismos obsoletos e resgatar a própria autonomia.


Em atendimentos individuais e online, ofereço o suporte técnico e humano para que você possa expandir sua consciência e viver com mais verdade.


Vamos além do óbvio?




 
 
 

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